Clube de leitura #3: A vegetariana (Kang Han)
written by Tenie at
quinta-feira, 16 de abril de 2026
Hoje vou fazer uma resenha com spoilers do livro que lemos em Março para o Clube de Leitura Entreblogs, A vegetariana, da Kang Han.
A premissa é simples: Yeonghye decide se tornar vegetariana após certa noite - e essa decisão vai mexer com todas as estruturas de sua vida.
É uma releitura que eu queria fazer desde que, em 2025, eu li
Coelho maldito, da Chung Bora, conterrânea de Kang. Eu me lembrava de ter entendido o livro de forma diferente e de sentido coisas diferentes, que me lembraram o livro de Chung, mas agora acho ambos bastante diferentes. Acho que Chung Bora traz alegorias mais diretas, mais incisivas, enquanto que Kang Han tem um estilo que te dá mais voltas, parece mais introspectivo.
Ao mesmo tempo, sinto que A vegetariana é muito mais direto, muito mais enraízado na realidade: vemos a vida de uma mulher espiralar em função do controle obsessivo e abusivo de seu marido, seus pais, e até de seu cunhado.
Em algum nível, eu entendo que a Yeonghye ficou doente não por parar de comer carne, mas por existir em uma sociedade que a suga e a explora, que não respeita seus limites e que quer forçá-la a cada passo. É enlouquecedora a quantidade de abusos que ela sofre e que, eventualmente, descobrimos que ela sofreu na infância na terceira parte, sob a perspectiva de sua irmã mais velha.
As duas primeiras partes poderiam ser chamadas Homem frouxo #1 e Homem frouxo #2.
Abrimos o livro com a narrativa do marido de Yeonghye, que é um
chorão e um mané. Ele admite que casou com ela por ser desinteressante e não ter nada de especial, sem falar nos níveis de abuso que ele comete contra ela. Quando ele fala que mulheres bonitas, ricas ou inteligentes intimidam ele, eu
QUIS CHORAR DE RIR!
Onde um salaryman bocó feito você ia chegar perto de uma mulher rica? Rica rica?
NUNCA! Seu palhaço! Ele não gostava era de mulher que pudesse ganhar mais que ele! Tu se ofende por qualquer mulher, é isso!
Quando Yeonghye joga fora todas as carnes da casa e passa a cozinhar só comidas vegetarianas, ele logo sai correndo pra chorar para os sogros e eles armam uma intervenção, que é quando o pai de Yeonghye dá um tapa na cara dela e força carne na boca da coitada, a ponto de ela cortar os pulsos.
Se isso não é um grito de me deixem em paz, o que é?
Sem falar que o palhaço do marido fica fantasiando com a irmã mais velha da esposa, pensando como ela é mais feminina, mais agradável, melhor esposa, etc.
Depois de ver o parquinho pegar fogo, o marido vira ex-marido e começamos a história da Mancha mongólica, que eu não sabia, mas são manchas esverdeadas com as quais algumas crianças nascem.
Yeonghye tem um mancha mongólica na nádega. E isso vira uma obsessão para seu cunhado, marido de sua irmã mais velha.
E aí o Homem Frouxo #2 começa a cercar o frango da cunhada emocional e mentalmente fragilizada, enquanto a esposa sustenta o vagabundo, cuida de negócio, casa e filho sozinha. Mesmo que ele se sustentasse, grande merda, não dava direito a ele de ficar predando a cunhada.
Os resultados de A mancha mongólica são devastadores.
A meu ver, eles determinam o nível de desolação no qual encontramos as duas irmãs na última parte, com uma Yeonghye só pele e osso, tentando virar uma árvore, e sua irmã sofrendo de sintomas parecidos com os que ela sofria no começo do livro - mas ela não pode se dar ao luxo de surtar, porque tem filho pra criar e vida pra tocar, e até da irmã mais nova ela se tornou a única responsável.
É um capítulo de exaustão, de desesperança. É o único focado em uma mulher e essa mulher, a irmã de Yeonghye, está desmoronando sob a pressão, sente culpa pelo que foi feito à irmã pelo pai, pelo irmão, pelo ex-marido, ela tenta alcançar alguém que já está perdida.
É bizarro como ela se culpa, mas nem um dos homens da história assume os próprios BOs, é triste e revoltante.
É um desbunde de livro sobre o que é ser mulher em uma sociedade que te sobrecarrega, te controla, te despreza e te usa.
A cada releitura, ele fica mais afiado e difícil de engolir.
Uma recomendação para quem é forte de coração.
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